sexta-feira, 23 de junho de 2017

Vozes de galinhas não-nascidas ecoam há 20 anos


Na primeira metade dos anos 1990, quando morava no interior de Pernambuco, MTV só era possível nas ocasionais visitas à família de minha mãe. Nessas férias em São Paulo, eu acampava diante da televisão, na tentativa de recuperar o tempo perdido.

No Disk MTV, via as mais pedidas pela garotada da minha idade: “November Rain” (ou qualquer uma dos dois “Use Your Illusion”, do Guns), “Give It Away” (ou outro dos inúmeros sucessos do “Blood Sugar Sex Magic”, do Red Hot) e... quem era aquele  feioso com um cabelo que parecia ter sido cortado pela ação comunitária? E que música era aquela, ao mesmo tempo melódica, bonita, mas raivosa no refrão em que ele batia na guitarra, como se autoflagelando por ser o verme desprezível de que falava na letra? Os caracteres no canto esquerdo inferior da tela respondiam: a banda era o Radiohead, a música, “Creep”, e o disco, “Pablo Honey”. Virei fã de cara.

Meses depois, de volta a Caruaru, tive autorização da diretoria da escola para cuidar da música que tocava nas caixas de som na hora do recreio. Eu tinha conseguido emprestado um CD promocional com o single “Creep” de alguém que trabalhava numa rádio local. Nem pensei antes de gravar a música na fita que tocaria na minha estreia na “rádio” do colégio. Mas o melhor seria ter pensado. Imagine como aquele som, que para mim já era estranho, soou aos ouvidos dos colegas, mais acostumados a ritmos como axé e forro. “Eles não gostam porque não conhecem”, eu dizia para mim mesmo. Mas não. Eles simplesmente não gostavam. Minha arrogante tentativa de doutriná-los se encerrou junto com minha experiência na rádio do colégio: ambas duraram apenas o horário daquele intervalo, depois do qual a diretoria ouviu um monte de reclamações.

Nos anos seguintes, continuei acompanhando a banda. O próximo álbum, "The Bends", trazia uma evolução do apresentado na estreia – belas baladas agridoces com guitarras –, mas, embora o vocal de Thom Yorke tivesse passado a ser mais falseteado (influência de Jeff Buckley, dizem), "Planet Telex", "Iron Lung", "High And Dry" e "Fake Plastic Trees" eram "só" excelentes, não revolucionárias. Isto estava guardado para o futuro.
Em 1997, ano em que completaria 20, eu estava no terceiro ano da faculdade e, novamente, morando em São Paulo. Nessa época, como fazia anos antes com a MTV durante as férias, eu me esforçava ao máximo para estar por dentro de tudo relacionado à música, mas agora em tempo integral. Para tanto, com a internet para mim tão inacessível quanto a MTV no passado e ainda muito longe de ser o que se tornaria, eu recorria a jornais e revistas. Os títulos mais relevantes desses meios – em especial os cadernos de cultura da Folha e do Estadão – decretavam, antes mesmo do ano acabar: "Ok Computer", a volta do Radiohead, era o melhor disco de 1997. Foi o que bastou para o impressionável universitário e estagiário juntar alguns reais do seu miserável salário e adquirir o CD. Mas, mais difícil do que angariar os fundos para comprar, só entender aquele álbum e suas vozes de galinhas não-nascidas.

Antes mesmo de saber bem o que "Ok Computer" era, eu já sabia o que ele representava. Era uma ruptura, não apenas com o que a banda havia feito antes, mas com toda a sonoridade da época. Com ele, o Radiohead abria mão da perfeição para buscar beleza no estranho, abraçando uma característica já perceptível, mesmo que tímida, desde "Creep". A banda aproveitou o passe livre, que – diriam em entrevista anos depois – a gravadora lhe concedera depois daquele primeiro sucesso, e experimentou. Comprou equipamentos em geral usados por bandas eletrônicas, começou a mexer com programação de computadores. Mesmo com os instrumentos mais tradicionais os músicos ousaram, tiraram sons inusitados de guitarras e percussão. O resultado são as texturas e climas que permeiam todo o álbum e que definiram a identidade sonora da banda dali por diante.

Obra de virada de milênio temática, "Ok Computer" é futurista, da estética (sonora e gráfica, do encarte) às referências sci-fi – “Subterranean Homesick Alien” fala de abdução, enquanto o título de “Paranoid Android” (a música das "vozes de galinhas não-nascidas") vem do livro “Guia do Mochileiro das Galáxias”. Mas, ao contrário dos antigos filmes desse gênero, em que humanos usavam roupas metálicas e capacetes no formato de aquários, nada aqui é datado. Crônica de seu tempo, o disco trata do desencantamento de vidas absolutamente irrelevantes, trituradas pelas engrenagens da padronização. Tome “No Surprises”, tome “Let Down”, tome "Lucky", que – não se engane pelo título – nada tem de otimista. Aqui não há espaço para essas bobagens. "É isso que você ganha mexendo com a gente", avisam na hoje clássica "Karma Police".

Nos anos seguintes ao lançamento de "Ok Computer", disco após disco, o Radiohead reafirmou seu status cult, afastando-se cada vez mais do convencional e, por contraditório, conquistando mais fãs. É verdade, também, que nem todos se curvam à banda, preferindo distância de suas experimentações.

Mas eu, vinte anos depois de ter ouvido "Paranoid Android" pela primeira vez, ainda não consigo me livrar das vozes de galinhas não-nascidas ecoando na minha cabeça.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Mais uma vítima do atentado


É um sentimento adolescente, mas que, como as espinhas, acompanha muitos para além dos anos prensados entre a infância e a idade adulta. Aquilo que sentimos quando, de repente, todos passam a gostar de algo que antes (parecia que) só você gostava. Sei que falei, numa crônica recente, sobre o direito que todos têm de gostar da banda que bem entenderem – inclusive da sua –, mas aquele texto foi escrito pelo meu lado adulto.
O Leandro adolescente de 40 anos, além de eventuais espinhas, carrega o mesmo egoísmo com relação aos seus artistas preferidos. Lembro, há mais de 20 anos, de como fiquei irritado quando o Kurt Cobain começou a aparecer nas capas de todas as revistas, até naquelas voltadas às meninas, com a Capricho. De repente, o Nirvana tinha deixado de ser uma banda suja e barulhenta para se tornar uma banda suja e barulhenta de que gente que nunca tinha gostado de bandas sujas e barulhentas gostava. Ou dizia que gostava.
Isso tudo me ocorreu esses dias, depois do atentado ocorrido em Manchester, durante o show da cantora Ariana Grande – até então, uma ilustre desconhecida para mim. Seu público é formado pelo que, na minha época, seriam as tais leitoras da Capricho. No concerto, além nas meninas, estavam seus pais e familiares. Com a explosão da bomba, houve várias mortes e um número maior de feridos. Atribuído a terroristas islâmicos, o atentado causou comoção geral, para além dos limites da cidade e do país. Numa coincidência sem significado, a tragédia aconteceu no mesmo dia do aniversário de um dos maiores ídolos nascidos ali, Morrissey. Se quisesse estabelecer alguma relação entre os fatos, para efeito do texto, poderia dizer que Ariana representa tudo aquilo que o ex-líder dos Smiths abomina artisticamente: música descartável produzida por um artista idem, vendida em escala mundial, consumida por milhões de forma absolutamente irrefletida. Mas nem Morrissey, em suas declarações mais controversas, diria que isso é o suficiente para tornar artistas e fãs merecedores da tragédia. O pronunciamento de Moz sobre o assunto gerou, sim, reações indignadas, mas por seu tom xenofóbico.
Aconteceu durante uma vigília de luto pelas vítimas. Foi captado por uma câmera – onde não há uma hoje em dia? –, postado nos principais sites e replicado nas redes sociais. Em meio à multidão sorumbática, ouve-se uma voz, solitária, porém confiante: “Don’t look back in anger, I heard you say…” Naquele momento, naquela voz, o antigo sucesso do Oasis assumia um novo significado. Era como se quem o cantasse tentasse consolar os conterrâneos e aconselhá-los a não odiar os terroristas. A mensagem deve ter sido entendida exatamente assim pelos outros presentes, que imediatamente passaram a engrossar o coro. Outras vozes se uniram àquelas ao longo dos dias, em outras cidades do país e do mundo. Logo, “Don’t Look Back In Anger” voltou aos primeiros lugares das paradas. Quase como há mais de 20 antos, quando, no auge do Britpop, eu e tantos jovens compramos “What’s The Story (Morning Glory)”, álbum que trazia a faixa.
Então, como antes com o Nirvana, gente que nunca tinha gostado do Oasis passou a amar a música. Menos pelo passou a representar do que pelo espírito gregário, que leva ao comportamento quase instintivo: se todos estão fazendo, por que não? O Courteeners, mais uma das tantas bandas surgidas em Manchester, durante um show na cidade agendado antes do atentado, aproveitou a oportunidade para tocar o hino. Foram acompanhados por toda a plateia, emocionada. Depois, num concerto organizado em prol das famílias das vítimas, o Coldplay – no mesmo show que teve participação especial do ex-Oasis Liam Gallagher – fez uma versão da canção. No palco, ao lado do vocalista Chris Martin, Ariana Grande arriscou um verso ou outro da canção – que, como a imensa maioria dos presentes da plateia, não fazia parte nem do seu repertório nem dos seus gostos particulares. Uma cena que me inspirou o comentário maldoso: “‘Don’t Look Back In Anger’ foi mais uma das vítimas do atentado de Manchester”.
Noel, o compositor do hit – e quem primeiro o cantou –, não participou do evento. Foi duramente criticado pelo irmão Liam, cujas palavras e palavrões foram minimizados pelo líder do Coldplay, que agradeceu ao Gallagher mais velho por ter lhes cedido suas músicas. (Como é bonzinho esse Chris Martin.) A desculpa de Noel para sua ausência foi estar fora do país em viagem com a família, programada antes do atentado e, consequentemente, do concerto.
Quem ainda criticava Noel talvez tenha mudado de ideia ao saber que, sem alardear, ele, detentor dos direitos autorais de “Don’t Look Back In Anger”, os cedeu em favor das famílias das vítimas. Concordou que assassinarem sua música, só não quis estar por perto para ver. É compreensível.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Produtividade

A maioria dos meus textos é escrita no celular, a caminho do trabalho ou na volta para casa. No ônibus ou no uber/pop/táxi, aproveito que sou passageiro para agilizar a produção de crônicas, textos, resenhas e até de rascunhos literários. Desde que abandonei o carro, minha produtividade nas letras aumentou um bocado. Acontece também, quando não escrevo, de aproveitar a viagem para consumir textos alheios. É então que leio livros, revistas, notícias e, confesso, textões de Facebook – que também produzo, claro.

Hoje seria dia de leitura: pretendia começar "Geração X", do Douglas Coupland - autor do qual já falei aqui. Um texto fácil, fluido, mas que, por ser no original em inglês, requer um pouco mais de atenção. Estava curioso pelo livro, então achei que esse interesse bastaria para garantir a concentração. 

Eis que chega atrás de mim, no ônibus, um sujeito careca e barbudo, mas aquela barba bem aparada, com cara de eficiente, desses que "não tenho tempo a perder". Como existem pessoas assim nos ônibus que pego. A caminho de algum escritório da Vila Olímpia ou no Itaim, como eu, usam a viagem para adiantar o dia. O problema é que, em muitos casos, isso não é feito em silêncio, com a leitura de notícias, e-mails ou mesmo feeds de redes sociais. Implica em fazer ligações – aproveitando todos os minutos ilimitados oferecidos pela operadora de celular – ou gravando mensagens de áudio.

Obviamente, não passa pela cabeça dessa gente atarefada que possam estar atrapalhando os companheiros de viagem. Invasão de espaço sonoro não parece ser interpretada por eles como invasão. Será que eles não ligam para a portaria para reclamar do barulho de furadeira no apartamento vizinho? Pois é. Barulho no ouvido dos outros é refresco. 

O careca produtivo falou, falou e falou. Fez, pelas minhas contas, umas três ligações e gravou um áudio – olhei para ele para conferir. Agora, está descendo do ônibus, com a vida agilizada. Eu desço em dois pontos. Li três páginas.