segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Lei de ano novo

Sou cético, bem cético, põe cético nisso. Mas, mais que cético, sou bobo. Por isso, há exato um ano, criei uma "lei" de ano novo: o primeiro filme que se vê determina como vão ser seus próximos 365 dias. Lembro bem, fiz isso em interesse próprio, ao sair de uma sessão do excelente "Capitão Fantástico". 

Meio que funcionou. Se meu 2017 não foi tão inspirado, divertido e emocionante quanto o filme, também não posso reclamar. Agora, evoco essa "lei" mais uma vez em meu benefício. Acabo de ver "Meyrowitz", produção Netflix assinada pelo Noah Baumbach. Como em toda a obra do diretor, o filme mistura drama e comédia, sem exagerar na dose para nenhum dos lados. Tem um bocado de dor e lágrimas, outro tanto de cenas patéticas que causam risos constrangidos, mas também arranca sorrisos. É um belo filme, e melhora bastante do meio para o fim. 

Não é bem o que desejo para o meu 2018 -- em especial a parte das lágrimas e do constrangimento. Também não espero que só engrene de verdade lá para junho. O que quero, mesmo, é chegar ao fim do ano achando "putz, que legal, valeu a pena". Assim como senti ao terminar "Meyrowitz".

sábado, 30 de dezembro de 2017

Cat Person*


O que faz de alguém uma Pessoa Gato ou uma Pessoa Cachorro? Preferir um dos dois bichos ou se identificar mais com um do que com outro? Qual seja o critério, sempre me coloquei no Time Cachorro. Vira-latas, Freeway e Frida foram meus companheiros de infância e adolescência, e, sempre que pensei num animal para ocupar esse posto, felinos não eram uma opção. Nunca vi sentido num animal de estimação que não fosse bobo, desastrado, carente e barulhento como eu. Que graça tem um mascote que não atende quando você chama, que é tão discreto e na sua que você até se esquece dele? Peixes são exatamente assim e dão menos trabalho. Precisei de 40 anos para mudar de opinião. E de time.

Neste fim de ano, meu irmão viajou com a família, eu não. Vizinhos, ele me pediu para, de vez em quando, ir à casa dele colocar água e comida para a Chiclete -- que, bem ao estilo felino, se permitiu adotar por eles. Ontem, fui pela primeira vez. Nem sinal da gata. A  ração e a água deixadas, intocadas. Comecei a procurar. "Chiclete, Chica, Chiclete". Cada cômodo verificado, todas as portas de guarda-roupas abertas. Nada. Mesmo confiando na independência felina, fui embora preocupado. A bichinha, afinal, já estava domesticada. Na rua, o que comeria? Como entraria em casa se todas as portas estavam trancadas? Pensei nisso o dia inteiro. Voltei outras vezes, na esperança de encontrar Chica aguardando à porta da sala, e me frustrei novamente. Se ela dormisse na rua, eu não conseguiria dormir.

Já era tarde quando peguei minha escova de dentes e fui à casa do meu irmão pela última vez, disposto a passar a noite lá, à espera de Chiclete. Mal sentei no sofá, ouvi um miado. "Chiclete, Chica, Chiclete". Nada na porta dos fundos, nada na porta da entrada, nada na garagem. Abri todos os quartos, até ela sair de um, daqueles que antes eu havia revirado. Saiu em silêncio, como se nada tivesse acontecido. Canino, pulei, lati, comemorei, feliz como não imaginei que um gato me deixaria. Felina, ela se manteve blasé, mas não totalmente. Em seguida, veio se esfregar em mim, retribuindo a preocupação.

Passada a breve interação, fomos dormir, cada um no seu canto. Agora de manhã, enquanto escrevo, ela está deitada aos meus pés, mas só porque eu a trouxe. O máximo que ela fez foi se permitir ficar. Se Chiclete me converteu, ao menos na preferência, numa Pessoa Gato, ela mesma continua a ser o que sempre foi.

*(Nada a ver com o polêmico conto homônimo publicado esses dias pela Mês Yorker. A escolha do título foi puro oportunismo.)

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Escritores, redatores

Numa entrevista, o Marcelo Motorola dizia que era injusto, os redatores de propaganda ganharem fortunas escrevendo apenas frases, enquanto os escritores, trabalhando muito mais, mal terem como se manter. 

Nem sei se a declaração era assim mesmo, mas o espírito era esse. Tem anos que li. Na época, eu mesmo começava a trabalhar justamente como redator de propaganda. Apesar de ele atacar o meu ofício -- ou talvez por isso mesmo --, simpatizei na hora com o Mirisola. Mesmo assim, nunca cheguei a ler um de seus livros, apenas trechos publicados em revistas.

Dia dessesum post patrocinado me informou do lançamento do seu último livro, hoje à noite. Resolvi ir. Na hora do autógrafo, eu disse que também escrevia. Pensando agora, me arrependo por não ter falado que, além de escritor, sou redator de propaganda. Teria sido engraçado.