quinta-feira, 5 de junho de 2014

Dias de Um Passado Lembrado

Por razões econômicas, meu pai levava meu irmão e eu para comprar gibis em bancas de revistas usadas. (Não confundir com sebos, estabelecimentos em geral voltados a colecionadores. Íamos a essas bancas porque éramos realmente duros.) Numa delas, nos deparamos com uma capa que chamou nossa atenção: trazia Wolverine, um herói que já conhecíamos, mas numa versão grisalha. Garras e dentes à mostra, ele defendia uma também envelhecida Kitty Pride, de expressão apavorada diante de uma ameaça que não víamos. Atrás dos dois, cobrindo quase todo o muro, um enorme cartaz de “procurados” trazia uma série de mutantes e, acima de alguns, uma tarja dizia quais já haviam sido presos ou eliminados. A tensão da cena dava a entender que, em breve, os dois x-men podiam engrossar esse número. Compramos o gibi na hora.

Eu e o Rogério já havíamos lido outras histórias dos alunos do Professor Xavier – nas quais já tínhamos visto os personagens daquela capa –, mas nenhuma havia mexido com a gente como aquela, ambientada num futuro sombrio. Era parte da saga “Dias de Um Futuro Esquecido”, que mal podíamos esperar para saber como continuaria – e, também, como havia começado. Apesar do gibi ser usado, a edição era recente, do mês anterior, e não tivemos muita dificuldade em encontrar os números anteriores nem em, depois, continuar acompanhando. O capítulo seguinte estava na última Superaventuras Marvel. Recém-publicada, exigiria dos nossos pais uns cruzados extras, mas valia o sacrifício – deles, claro.

Chris Claremont e John Byrne, respectivamente roteirista e desenhista, dividem os créditos desta série e de outra, tão marcante quanto: “A Saga da Fênix Negra”, que, embora anterior, lemos apenas depois, também em gibis de segunda mão. Os dois arcos de histórias contêm algumas das cenas mais icônicas e chocantes já mostradas nos quadrinhos até então – e até hoje. Em “...Futuro Esquecido”, testemunhamos Wolverine ser reduzido ao indestrutível esqueleto de adamantium por um sentinela. Em “...Fênix Negra”, nos comovemos com o choro de Ciclope segurando a falecida Jean Grey nos braços. A excelência comum equivale as duas epopeias, até entrar em ação o critério de desempate, que para mim é o emocional, sempre. Aí, você já sabe qual ganha.

Em 1986, quando compramos aquela Superaventuas Marvel, ao mesmo tempo em que sonhávamos com um filme dos X-men, eu e o Rogério logo nos dávamos conta de que seria impossível. A gente sabia que os efeitos especiais jamais seriam capazes de reproduzir, por exemplo, a pele de aço orgânico do Colossus. Nossa descrença cinematográfica se estendia às também metálicas garras do Wolverine, aos raios do Ciclope, aos poderes da Fênix... Pragmáticos como apenas crianças pobres que nunca acreditaram em Papai Noel sabem ser, estávamos certos de que não viveríamos para ver nossos queridos mutantes no cinema. O futuro viria a confirmar que realmente Papai Noel nunca existiu, mas nos reservava coisa muito melhor que um velho gordo puxado por renas voadoras.

E tudo bem se já éramos adultos quando a trilogia dos X-men foi às telas: para provar que nunca deveríamos ter duvidado do seu poder, o cinema nos levaria novamente à infância com as fitas dos discípulos do Professor X. Aqueles filmes superavam tudo o que julgávamos impossível nos anos 1980. Os efeitos eram incríveis, como já se tornara default entre as mega produções, mas o que surpreendia mesmo eram os roteiros – embora criticados pelos puristas de sempre, foram muito bem sucedidos em transportar para as telas a alma dos mutantes, com seus conflitos (internos e externos) e sua busca por coexistência, aceitação – e, no caso de Magneto & Cia, supremacia. Embora Wolverine tivesse passado de baixinho truculento a galã, a essência dos personagens também estava lá – até a do próprio. O crescimento do herói não foi apenas em centímetros: como já havia acontecido nos quadrinhos, Logan rapidamente assumiu o protagonismo da série. Cresceu tanto que, além de ganhar seus próprios filmes, acabou roubando o papel que originalmente cabia a Kitty Pride em “Dias de Um Futuro Esquecido”. No último filme dos X-men, é Wolverine, não ela, quem volta ao passado para tentar impedir a criação dos sentinelas e o consequente extermínio dos mutantes.

O que também cresceu muito com a sequência de filmes mutantes foram minhas expectativas quanto à filmagem da minha saga favorita. Os anteriores tinham sido sensacionais, mas este tinha que ser mais que isso. Na manhã do sábado passado, estava em frente ao cinema do Shopping Paulista esperando sua abertura, para assistir ao filme já na primeira sessão. Saí dela entusiasmado e disse para quem encontrei: é o melhor filme de super-heróis já feito. Agora, quase uma semana depois, o entusiasmo se mantém: sim, amigos, é o melhor filme de super-heróis já feito. “Dias de Um Futuro Esquecido” traz o que a primeira trilogia tem de melhor (inclusive o diretor Brian Singer) combinado aos elementos de “Primeira Classe”, o ponto mais alto da cinematografia dos X-men até então. Foram feitas dezenas de alterações em relação aos quadrinhos, evidentemente, mas todas benéficas e plausíveis. Puristas, novamente, devem ter reclamado, mas do que eles não reclamam? Aliás, por que eles ainda se dão ao trabalho de assistir às versões cinematográficas?

O pequeno Leandro certamente teria gostado, e muito. Só acharia injusto não ver nos créditos os nomes dos ídolos Chris Claremont e John Byrne.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O dia em que entrevistei Andy Rourke

Antes de Andy Rourke subir ao palco, para uma pequena porém emocionante participação no show do velho amigo Johnny Marr, eu já estava suando. Bem mais que a emoção, o que me fazia transpirar era o calor incomum para o outono paulistano. Num desrespeito não condizente com a importância dele, a organização do festival escalou Johnny para se apresentar às 14h30. Dias depois, reencontrei o ex-baixista dos Smiths. Não estava mais sob um sol abrasador, nem entre milhares. Mas, mesmo assim, mesmo com o ar condicionado da rádio, minha transpiração ultrapassava a do domingo anterior.

Estava nervoso. Tinha ido à sede da 89 FM para entrevistar um integrante da minha banda preferida. Era uma emoção ainda maior do que vê-lo tocar "How Soon Is Now?" ao lado de um dos gênios que a compuseram – uma emoção, aliás, que já tinha sido grande. Para me preparar, escrevi uma série de perguntas e, temendo as propriedades amnésicas do nervosismo, me esforcei para memorizá-las, lendo-as e relendo-as seguidamente até a hora da entrevista, que a MTV havia me convidado para fazer. O Mariano, diretor do programa Coletivation, tinha lido "Quem Vai Ficar Com Morrissey?"e, tendo gostado, achou que seria boa ideia chamar o autor para a tarefa -- quem sabe, para realizar o sonho do protagonista de ser repórter musical. Uma ótima ideia, uma grande honra, que não parece ter levado em conta o enjoo de um marinheiro de primeira viagem. A produtora Laís, por sua vez, levou. Para me ajudar, imprimiu as perguntas e as colocou em plaquinhas, colas escolares autorizadas, que eu teria à mão e poderia consultar durante a entrevista. Além disso, para não deixar dúvidas de que era gente boa, a moça fez alguns "ensaios" comigo, colocando-se no papel do Andy Rourke, para aliviar minha tensão.

Chegou a hora, e nada daquilo adiantou. Suei, gaguejei e minha mão, segurando o microfone, tremeu. Mas o nervosismo não afetou minha memória, ao contrário: não consultei nenhuma das plaquinhas, seguras pela outra mão, mantida presa às costas durante todo o tempo. Ótimo eu saber o que perguntar, péssimo o efeito visual daquela mão para trás, tão nervosa e amadora, tão contrária à articulação quase arrogante dos VJs que cresci assistindo numa outra encarnação daquela mesma MTV. Meu inglês, que nunca havia me deixado na mão, mostrou-se tão vacilante quanto eu. Esqueci completamente a recomendação do câmera e mal olhei para a lente do seu equipamento. A última e inequívoca prova do meu nervosismo: falei demais, fui muito fã. Até agora, passadas duas semanas, ainda não vi a gravação. Mas, apesar das afirmações contrárias do pessoal da MTV, tenho certeza que ficou péssima.


Semana passada, na segunda, fui aos estúdios da própria MTV gravar minha participação no Coletivation. Dessa vez, as oportunidades de dar vexame seriam outras, mais familiares – afinal, já havia sido entrevistado antes, no programa Combo Fala+Joga, da PlayTV. Naquela ocasião, apesar das dificuldades de controlar joysticks e língua ao mesmo tempo, até que me saí bem; no Coletivation, acho que também não fui de todo mau. Contribuíram para isso os apresentadores Patrick e Kéfera, muito bacanas. Apesar da levada stand up comedy do programa, não me usaram – muito – como escada. Me deixaram falar um bocado, sobre Smiths, Morrissey, Andy Rourke e sobre o livro – óbvio. Mesmo sem ter visto o produto final, saí de lá com um bom pressentimento.


Na próxima quarta, dia 30, às 20h, finalmente verei se fiz assim tão feio na entrevista com o Andy Rourke – e se mandei tão bem mesmo no Coletivation. E você também vai ver: às 20h00, na MTV.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Escolhas (ou Lollapalooza 2014)


Johnny Marr, Andy Rourke e meu dedo.
A vida é feita de escolhas. Inclusive, começar este texto com um clichê desses foi uma que fiz. Mas, por mais lugar-comum que seja esta frase, ela aplica-se perfeitamente para resumir minha experiência ontem, no Lollapalooza. Em primeiro lugar, escolhi não me entregar completamente à preguiça que aumenta com os anos. Aumenta, aliás, tudo que se refere aos festivais: o tempo que se passa em pé, a distância entre os palcos, a fila para usar o banheiro e para comprar bebida, além do preço da própria. Correção: nem tudo aumenta. O poder de persuasão dos linups vai na contramão. Sábado, o Phoenix e o Julian Casablancas não tiveram sucesso em me tirar de casa. Mas, juntos, Pixies, Arcade Fire, New Order e Johnny Marr, sim, me convenceram. Se eles, mais velhos que eu, ainda estão na ativa, qual a minha desculpa? Fui lá, com amigos do trabalho e da vida, numa confortável van, com bancos macios e ar condicionado – um argumento bem mais convincente que o Vampire Weekend, por exemplo.

Chegamos cedo, para ver uma das primeiras atrações, aquele que, para mim, era “o” show. Eram cerca de 14h30 quando Johnny Marr subiu ao palco. Sob um calor que nada tinha a ver com o atual outono, ele e banda insistiam na elegância de camisas de mangas compridas abotoadas até o colarinho. Já eu, descamisado, pirava com a execução perfeita de “Stop Me If You Think That You Heard This One Before” – claro que eu tinha ouvido, Johnny, mas não ao vivo, não tão foda. Comparando às apresentações que vi no YouTube, tive a impressão de que Johnny cantou melhor as canções dos Smiths – talvez porque, com os sucessivos shows, a sombra do mítico Morrissey torne-se mais pálida. Não há o que questionar: aquelas maravilhosas letras ficam melhores na voz de quem as compôs. Mas, se o antigo parceiro pode cantar suas melodias, por que não Johnny se arriscar a entoar os versos do outro? Musicalmente falando, o incomparável é ele. Boz Boorer e todos os guitarristas que, antes dele, acompanharam Morrissey são bons, mas nenhum rivaliza com Marr. Nenhum é tão bem sucedido ao recriar os inesquecíveis riffs compostos por ele. Nas músicas do seu brilhante disco de estreia, “The Messenger”, feitas para ser cantadas por ele, obviamente sua voz encaixa-se melhor. E que bom ver Johnny finalmente ter uma carreira solo à altura do seu talento e importância. Material novo que não é novo entre aspas, que se sobressai diante das fileiras de bandas sem alma fabricadas em série, pelas quais ele é, em parte, responsável – crime sem dolo: até porque, ninguém se torna influência ou referência simplesmente querendo. Diferente do que geralmente acontece nas apresentações de ídolos do passado, em que têm-se que aturar canções atuais à espera dos antigos sucessos, no show do Johnny, músicas como “Generate! Generate!”, “The Right Thing Right” e “New Town Velocity” não são meramente encheção de linguiça (e de saco) para quem quer ouvir Smiths. Dito isso, vamos admitir: os principais momentos do show foram mesmo os hinos da banda. Neles, mesmo que a voz do Johnny não fosse boa o suficiente, o infalível coro da plateia o ajudaria. Na derradeira “There Is A Light That Never Goes Out”, mais uma prova de que sou um velho ranzinza: a cantoria do sujeito ao meu lado, cuja voz muitas vezes encobria a que vinha do palco, quase me fez mandá-lo calar a boca. Só não o fiz porque, enfim, ainda não sou tão velho e ranzinza a esse ponto. Apesar de “There Is A Light...” ser a mais famosa e catártica, para mim e para os fãs de verdade, a emoção maior veio antes. Numa surpresa que não surpreendeu os mais bem informados – a informação já tinha vazado –, Johnny chamou seu mais antigo amigo, Andy Rourke. Ao lado do ex-baixista dos Smiths, no mais próximo que a banda já chegou dos palcos nacionais, tocou “How Soon Is Now”. Infelizmente, foi a única que tocaram juntos, mas suficiente para fazer daquele um dos momentos que deveriam ser guardados sob  redomas de vidro – como sugere Holden Caulfield em “O Apanhador No Campo de Centeio”. Coisa linda. 

Depois de ver Johnny e Andy tocando juntos, o ingresso já estava mais que pago. Mas a van que tinha nos levado estaria de volta apenas às 23h00 e, já que tinha que esperar até lá... Não, falando sério, tinha algumas das minhas bandas preferidas e uma linda tarde ensolarada pela frente. Cerveja é o elixir da juventude e, mesmo que o calor a evaporasse rápido, ajudava a ignorar as reclamações do joelho – que eu não ouvia ainda, mas que não tardariam. De olho na programação, vi que levaria um bom tempo até o próximo show imperdível (Pixies). Então, saí andando e bebendo, me encontrando com amigos com quem não tinha combinado e me perdendo daqueles com quem estava. Por sorte, quando o show do Pixies começou a voz de Black Francis não era a única conhecida que eu ouvia. Abraçado com amigos, cantei junto as músicas que há anos me acompanham e que conheço de cor. Era meu terceiro show do Pixies, o primeiro que veria sem a Kim Deal – o componente de doçura e simpatia de uma banda pesada e mal encarada. A baixista argentina – a segunda tentativa de substituí-la – tem certa graça, desempenha seu papel no baixo a contento... mas não é a Kim Deal. A própria banda sabe disso, tanto que, para evitar mais (e injustas) comparações, não se arriscaram em nenhuma das músicas que ficaram famosas na voz da Kim. As novas – do ótimo “Indie City – não deram conta de suprir a ausência de “Gigantic”. Mesmo assim, gostei muito do show. Com aquele repertório, não dá para reclamar – se bem que, àquela altura, meus joelhos já começavam a fazer isso.

O Soundgarden tocava a uma distância impensável, que foi de onde eu vi, mais interessado em trocar uma ideia com mais amigos recém encontrados. Depois, um amigo músico que viu pela TV disse que eu só perdi a chance de ficar constrangido com a incapacidade de Chris Cornell alcançar as antigas notas; mas outros, com menos exigência técnica, me disseram que foi divertido.

A noite avançava e o dilema se aproximava: Arcade Fire e New Order tocariam no mesmo horário. Uma cagada da organização, que me impediria de assistir ambos e separaria os homens dos meninos. Ou melhor, os jovens dos velhos. Ao mesmo tempo que gosto muito do Arcade Fire, tenho um bode terrível deles: me parecem um bando de chatos hippongas que, paradoxalmente, fazem uma música que me agrada bastante. Somada essa resistência à “teatralidade” deles ao último disco – que ainda não me desceu –, decidi pelo meu segundo show dos veteranos de Manchester, torcendo para eles demonstrarem estar em tão boa forma quanto o conterrâneo Johnny Marr. A diferença é que, se o guitarrista tinha a seu favor um elemento surpresa no baixo, o New Order foi prejudicado justamente pela ausência daquele que se consagrou tocando esse instrumento na banda. Kim Deal não é apenas uma baixista para o Pixies, e o mesmo pode se dizer de Peter Hook no New Order. Ele, provavelmente, fez mais falta do que ela. Bernard Sumner é bonzinho, (ainda) canta bem, mas é a falta de carisma em pessoa. Enquanto Peter Hook dividia – e ficava com a maior parte das – atenções com ele, tínhamos para onde olhar quando sentíamos falta de presença de palco. Vídeos lindos exibidos no telão e uma iluminação espetacular completavam os esforços técnicos para suprir as deficiências cênicas da banda. Mas, se não fosse um repertório irretocável, repleto de hits – “Perfect Kiss”, “Blue Monday”, “Bizarre Love Triangle” e “Love Will Tear Us Apart”, para ficar em alguns –, nada disso daria conta. A banda se segurava nos seus sucessos, mas, quando Sumner ensaiou uns patéticos passos de dança, fiquei imaginando se não subiria alguém para segurá-lo e impedi-lo de cair. As músicas do New Order e do Joy Division envelheceram muito bem, mas o Bernard...

Desde o começo do show do New Order, secretamente lamentei não ter escolhido o Arcade Fire. À medida que o show avançava, esse arrependimento se acentuava. Hoje, lendo e ouvindo relatos de quão maravilhoso foi o concerto dos canadenses, esse sentimento se intensificou. Para tentar arrefecer a ressaca opcional (não a ressaca que você tem por escolha, mas por causa de uma escolha), procurei dizer a mim mesmo que, em breve, o Arcade Fire volta para o Brasil ou, caso contrário, eu os verei numa futura viagem ao exterior. Como último recurso, me conformo com o clichê que deu início a este texto: a vida é feita de escolhas. E, apesar do cansaço que agora me empurra para a cama, não me arrependo de ter escolhido ir ao Lollapalooza 2014.