sexta-feira, 13 de abril de 2012

100 anos, 3 tios


Eu, tio Gusto, Rogério e tio Luiz. Ficou faltando o tio Paulo.

Jogo da penúltima rodada da fase de classificação do Paulista, São Caetano x Santos não valia muita coisa. O alvinegro já estava garantido nas quartas. A irrelevância da partida era ressaltada pelos absurdos 60 reais do ingresso, fruto de uma iniciativa de lucro oportunista do time da casa, e pela promessa de chuva do céu, trajado de preto e branco como o visitante. Nem a anunciada escalação titular, com Neymar e Ganso, me faria trocar o sofá pelas enferrujadas arquibancadas do precário Anacleto Campanella, de visualização infinitamente inferior à proporcionada pelas várias câmeras da TV.

Minha cidade natal não fica tão longe da minha atual casa, é verdade, mas seria necessário um exército para me convencer a me abalar até lá. Ou quase isso, afinal, a numerosa tropa responsável pela minha ida ao estádio nada tinha de beligerante. Reunidos, tios, primos e agregados somavam 13 pessoas, e eram apenas um resumo da representação santista entre os meus. O belo gol de Neymar não foi suficiente para mascarar a surpreendente apatia da mesmíssima equipe que havia jogado muito contra o Internacional, em Porto Alegre. Acabamos perdendo de virada.

Nem esse resultado, nem o absurdo pago no ingresso, nem as toscas instalações do Anacleto, nem a chuva, que, felizmente, acabou sendo breve. Nada disso fez com que eu me arrependesse de ter ido. Freqüentadores de estádios nos anos 1960, 1970 e 1980, meus tios afastaram-se dos campos motivados pelas notícias de violência e, vai, pela preguiça que nos é comum. As oportunidades de me reunir nas arquibancadas com os três, grandes responsáveis por eu ser santista, são raríssimas. Que me lembre, antes disso, a última vez que assistimos a um jogo juntos havia sido em 1995, também no ABC, também com resultado decepcionante: um 2 a 2 contra o Juventus, no Bruno Daniel, em Santo André.

Em tempos de Neymar, difícil é convencer uma criança a não torcer pelo Santos. Como indica a predominância moicana, as cabeças da molecada já estão feitas. Mas, entre fins dos anos 1970 e princípios de 1980, período de baixa alvinegra, a lavagem cerebral requeria camisas, bolas e, claro, toalhas de banho. Abnegados, o tio Gusto, o tio Paulo e o tio Luiz lançaram-se na minha catequese. Aproveitando-se da pouca importância que meu pai dava ao futebol, repetiram comigo o método já posto em prática com o Rogério, meu irmão, e os primos mais velhos. (Desses, apenas o César não foi arrebanhado, convencido pelo pai palmeirense, que o batizara com o nome do atacante Maluco. Já com o Alan, o tio Alírio não teve a mesma sorte.) Mantiveram o processo a cada vez que a família aumentava, com os filhos e, depois, os netos. No geral, tiveram sucesso. Outras poucas exceções à parte, o crescimento da família santista correspondeu ao da nossa.

Se hoje eu, meu irmão e primos agradecemos aos tios pela doutrinação, ao longo da infância e adolescência o sentimento era outro. Passada a memória do titulo paulista de 1984, com a qual nos escudávamos da gozação, não havia como nos livrar da zombaria dos torcedores de outros times, na escola e, depois, no trabalho. Até o Palmeiras, de fila mais antiga que a nossa, voltou às conquistas no começo dos anos 1990, deixando-nos, santistas, como alvos únicos da galhofa adversária, da qual passaram a engrossar o coro. A arbitragem não quis, e Giovanni e seu duvidoso esquadrão – o mesmo que eu e meus tios vimos empatar com o Juventus da rua Javari – não evitaram a maioridade de nosso jejum, tampouco as conseqüentes piadas envolvendo títulos de eleitor e carteiras de motorista. Mas a ironia quis, e um moleque com a mesma idade de nossa escassez de títulos decretou o seu fim. Como o lateral corintiano Rogério, ninguém esquece das oito pedaladas do Robinho. Essas finais de 2002 eu presenciei in loco. Também estava lá na conquista de 2004, na de 2007, em um dos jogos da final Paulista de 2010 e na da Libertadores do ano passado.

Sou sócio do Santos e vou a quantos jogos puder, inclusive aqueles na Vila Belmiro, no meio da semana. Aos que me acusam de “neo santista” – gracinha recorrente entre rivais que, agora que ganhamos tudo, têm mesmo de arranjar novos temas para o humor – costumo dizer que, se estive ao lado do time nos piores momentos, não participar de sua boa fase agora seria o mesmo que largar a namorada gorda que emagreceu. Esta, aliás, é uma disputa recorrente nas filas de estádio, entre torcedores. Enumerando jogos traumáticos ou obscuros em que marcou presença, um quer provar ao outro que ele, sim, apoiou mais o time. (Mais ou menos o que, sem me dar conta, acabo de fazer.)

Os 100 anos do Santos encontram o time redimido com os títulos e a torcida. E meus tios, redimidos comigo. Afinal, se tenho o “orgulho que nem todos podem ter”, é graças aos irmãos da minha mãe. Parabéns, Santos. Parabéns, tio Gusto, tio Luiz e tio Paulo. E saibam: se eu tiver um ataque cardíaco a qualquer hora, a dona Mercês vai querer acertar as contas com vocês.

PS: Na contramão da influência, até meu pai, palmeirense pouco convicto, converteu-se. Usando um expediente semelhante ao dos tios, eu e o Rogério lhe pagamos sorvetes quando ele nos acompanha aos jogos.

domingo, 11 de março de 2012

“You’ll never walk alone”



À certa altura, no meio de “Speedway”, as luzes do palco se apagam e a banda fica muda. Mais uma vez, a sensacional – porém esperada – pausa dramática que acompanha a canção? Ouvimos, então, a voz de Morrissey entoando versos que não são de “Speedway”, nem ao menos de sua autoria. “When you walk through a storm, Hold your head up high, And don't be afraid of the dark.” Era “You’ll Never Walk Alone”, conhecida na voz de Elvis Presley e na da torcida do Liverpool, que a adotou como hino. Assim, o cantor endossava as palavras do meu texto sobre sua apresentação no Rio; sobre suas apresentações, de modo geral. Elas não se confundem.

Alguns elementos, é verdade, estavam novamente ali, como as críticas à família real inglesa, pegando carona na estada de Harry em nosso país – e não é que o moleque perseguiu o Moz até São Paulo? – e as camisas “Assad is shit”, também usadas pela banda em Belo Horizonte. O setlist também permaneceu inalterado desde o começo da turnê brasileira. Mostrando-se, ao contrário do que se alardeia, sensível às críticas, depois da recepção fria em Buenos Aires, Morrissey optou por um repertório mais amigável. Amigável também manteve-se ele. Começou com uma saudação à “Sampa” – que é como se refere a São Paulo, numa tentativa de intimidade, apenas quem não é daqui –, depois agradeceu a um “presente” (é, em português), um LP do New York Dolls dado por um fã, e, ao longo do show, fez graça com a platéia. Sempre irônico, claro, para não deixar dúvidas de que a Inglaterra é sua e continua a lhe dever uma vida. Não azedou sequer quando uma das caixas de som estourou, já no fim do show, em plena execução da hipnotizante “How Soon Is Now?”. Ignorou o problema técnico e continuou cantando. (Ah, se fosse o João Gilberto...)

Vi o show da famigerada pista VIP, mas a uma distância semelhante de onde assisti ao concerto carioca – as dimensões da Fundição Progresso são menores que as do Espaço das Américas, lugar, diga-se, muito bacana, limpo, organizado, mas que carece de um ar condicionado decente. Aqui, cabe um comentário sobre essa aberração da organização moderna de espetáculos. Os melhores lugares deveriam, sempre, pertencer àquelas figuras que aparecem no Jornal Nacional acampadas nas filas, dias antes dos shows, e não a quem, como eu, paga mais – ou quem, como conhecidos, ganhou a vantagem com o ingresso. Mas, enfim, minhas convicções sobre isso não me impediriam de comparecer ao show, nem de dispor de mais grana para me posicionar melhor. Embora entenda a postura de um amigo que, diante da divulgação de que até no show do politizado cantor haveria o tal espaço, resolveu não ir. Afinal, se o cara tem o poder de vetar a comercialização de derivados de carne nos seus concertos, também poderia opor-se à área VIP, não? Mancada, concordo, mas não me penitenciaria por isso.

Mas o que fez deste meu sexto show do Morrissey realmente especial – e aqui você vai ter que me desculpar a cafonice – foi a presença de pessoas que para mim também o são. Estavam lá meu irmão, alguns dos meus grandes amigos e a minha namorada. E, mesmo sem o Rogério e muitos dos camaradas presentes por perto – a Débora, sim, não saiu do meu lado –, só o fato de saber que eles estavam lá, compartilhando comigo um momento tão único, me emocionou tanto quanto ouvir ao vivo as minhas músicas favoritas. (OK, não me emocionou tanto assim.) Mantenho-me carnívoro, mas dos ensinamentos do bardo de Manchester sigo à risca o “hold on to your friends”. Enquanto eu os tiver, nunca andarei sozinho. E, quando eles não estiverem por perto, sempre haverá um iPod com algumas centenas de músicas de um certo senhor charmoso.

sábado, 10 de março de 2012

“The pleasure and the privilege is mine”



A visita do príncipe Harry ao Rio de Janeiro coincidiu com a passagem da verdadeira realeza britânica pela cidade. Mais do que uma piada fácil – que provavelmente já deve ter sido feita por alguém da crônica musical – a frase que escolhi para começar o breve relato do quinto show de Morrissey a que tive o prazer e o privilégio de assistir dá a real dimensão da relevância dos dois ingleses. Enquanto o jovem farrista é o representante menos representativo de uma monarquia cujo maior poder é o de atrair turistas para Londres, o cantor prestou tamanhos serviços à cultura pop que só não foi declarado Sir porque, bem, dificilmente a tal rainha sem poder daria esse reconhecimento a alguém que gostaria de vê-la morta. Talvez o filho da Diana não soubesse da presença de um de seus súditos mais ilustres na cidade, mas esse súdito, nada orgulhoso, fez questão de mencioná-lo. E as palavras usadas, claro, foram pouco elogiosas.

Talvez Harry não gostasse de tê-lo ouvido ontem, mas Morrissey levou a platéia da Fundição Progresso, formada por centenas de pessoas sem sangue azul, à loucura – principalmente, claro, nas músicas dos Smiths. Quando Moz e sua banda tocaram “There Is A Light That Never Goes Out”, “Please, Please, Please..” e “How Soon Is Now?” o que se via poderia perfeitamente ilustrar o verbete “catarse” de qualquer enciclopédia. Por todos os lados, pessoas de olhos fechados e mãos levantadas lembravam os fieis de cultos evangélicos e faziam jus à experiência, verdadeiramente religiosa. Mas só nessas músicas. No resto do show, o que se viu – e, pior, se ouviu – foi o completo desrespeito típico das platéias brasileiras, seja de shows ou de cinema. A escumalha não cala a boca. Parece que estão tratando de assuntos como, sei lá, a liberação de um novo pacote de auxilio financeiro à Grécia ou uma intervenção militar na Síria. Só isso explicaria a impossibilidade de adiar o falatório. Em “I Know It’s Over”, Morrissey afirma que é fácil amar e odiar, mas é preciso força para ser gentil e amável. Foi justamente com a música ao fundo que eu lhe dei razão. Cansado do incessante blá-blá-blá, me virei para os boquirrotos e gritei para deixarem o papo para outra hora. A Grécia ou a Síria poderia esperar o fim do show.

Adaptando o repertório para uma platéia pouco acostumada a vê-lo, numa generosidade incomum em astros da sua envergadura, Morrissey substituiu novas (e excelentes) canções, como “Action Is My Middle Name” e “People Are The Same Everywhere”, por mais músicas dos Smiths. E quem, como eu, não foi lá só para ouvir os hits da banda extinta (não duvido que boa parte dos presentes só a tenha conhecido com o filme “500 Dias Com Ela”), além do inconveniente palavrório dos imbecis, não teve do que se queixar. Mesmo com a ênfase maior nos álbuns mais recentes, não faltaram clássicos como “Alma Matters” e “Everyday Is Like Sunday”. E de “Vauxhal And I” (1994), veio “Speedway”, em execução arrebatadora como pede a música. Por mais de um minuto, cantor e banda se silenciam, as luzes do palco se apagam, e só quem tem alguma familiaridade com o tema entende o que está acontecendo. Passada a pausa, ao som de uma motosserra, a música recomeça, e os pelos se arrepiam.

Na letra da mesma “Speedway”, o mancuniano declara sempre ter se mantido fiel a alguém. Quando ele canta, “Speedway” e todas as outras, percebemos que esse alguém é ele mesmo. Ao vê-lo interpretar sua obra, mesmo a parte mais antiga dela, o verbo distancia-se das artes cênicas. A emoção trazida em sua voz nos faz sentir o tal medo que se apossou dele no momento em que faria o pedido, mesmo depois de mais de 25 anos da composição de “There Is A Light...”. E, com a bagagem que os cinco shows me deram, garanto: Morrissey pode repetir o setlist – não que costume –, mas nunca se repete.

Cada apresentação sua é única, e em cada uma ele nos reserva uma surpresa. Algumas bizarras e hilárias, caso da banda de cuecas – exceção feita ao rotundo guitarrista e co-compositor Boz Boorer, para o qual o chefe escolheu figurino composto de peruca e vestido, esse sim repetido. Outras polêmicas, como as declarações recentes sobre as Falklands (que ele fez questão de, como os argentinos, chamar de Malvinas) e as mais antigas, referindo-se aos chineses como sub-raça. O tipo de contundência possível graças à manutenção do status “indie” – que aqui refere-se mais à independência do que ao estilo –, impensável para bandas como o contemporâneo U2, hoje convertido em trilha sonora de jogging de classe média, de espetáculos grandiosos, pirotécnicos e mecânicos.

Por isso, é com um sorriso no rosto que me lembro: amanhã vou reencontrar Morrissey mais uma vez. Vai ser a sexta, e vai ser bem diferente das outras. Mais um puta show que o pobre príncipe Harry não vai ver.